A VIDA E O PENSAMENTO CRISTÃO: SERÁ QUE ESTAMOS EM LINHA COM A VERDADE?
Inicio os primeiros meses deste ano dando continuidade às coisas que tem me levado a uma reflexão séria sobre o sentido e conteúdo da vida cristã. Como pastor e considerando-me um pensador do meu tempo e da minha classe, preocupo-me com o que tenho visto e ouvido, quando o assunto é cristianismo ou simplesmente vida cristã. Pelas Escrituras entendemos que a igreja é o povo pelo qual a verdade é vivida, protegida e proclamada, com palavras e ações. Paulo, o grande apóstolo, a compara a uma coluna e um baluarte da verdade (1 Tm. 3: 15). Entretanto, a verdade tem sido tão relativizada, que até dentro dos meios cristãos não tem sido possível chegar a conclusões absolutas. Entendo que esse fenômeno é fruto da influência pós-moderna no pensamento e comportamento cristão. Influência essa que, sem que percebamos, tem nos roubado a capacidade de definirmos alguns conceitos. A confusão começa com a falta de definição do que venha ser vida cristã, teologia cristã, cosmovisão cristã, e assim por diante. Em outras palavras, o que rege o comportamento cristão? Qual é a base do pensamento cristão? E, de que maneira podemos enxergar e discernir o mundo a sua volta? Se não tivermos esses fatores definidos, dando-nos consciência do que significam e, sobretudo, quais são os seus propósitos, corremos o perigo de vivermos uma falsa espiritualidade, que intitulamos de cristianismo. Paulo nos alerta sobre um tempo em que as pessoas se distanciariam da verdade, buscando suas próprias verdades e, como sentindo coceiras nos ouvidos, buscariam mestres segundo os seus próprios interesses (2 Tm. 4: 3). Há, então, uma necessidade imperativa de definirmos o conceito de vida cristã, teologia cristã e cosmovisão cristã. Guardada as devidas proporções, e reconhecendo minha própria limitação, é isso que proponho neste texto.
O que é vida cristã? Para chegarmos a uma conclusão sobre esse conceito, devemos identificar alguns pensamentos, que se definem como vida cristã, mas que, à luz da Palavra de Deus, não são. O primeiro conceito falso sobre vida cristã é aquele que afirma que tal vida se caracteriza por um bom comportamento desenvolvido pelos seres humanos. Bom comportamento não é sinônimo de vida cristã, isso porque, tem muita gente com bom comportamento, mas que está longe de isso ser uma marca da vida cristã. Conheço pessoas de boa conduta, até mesmo dentro da igreja, mas que isso é fruto do medo das conseqüências do mau procedimento e, assim, procura-se viver corretamente, porque, do contrário, colherão muito mal de suas atitudes. É óbvio que todas as ações geram consequências, mas a vida cristã autêntica não se caracteriza por isso, e sim, por sermos totalmente transformados, de forma milagrosa, por meio da ação regeneradora do Espírito Santo. É isso que Jesus ensina (Jo. 3: 1-6) e Paulo ratifica (Tito 3: 5). Acredito, com pesar em meu coração, que há muitos, dentro da igreja, que precisam de uma experiência regeneradora com Deus, a fim de viverem para sua glória e não apenas para se livrarem dos prejuízos de uma vida desregrada. Outro fator que não define a vida cristã é aquele que a confunde com atividades religiosas, ou seja, o velho engano que diz: “sou cristão porque me envolvo com atividades da igreja”. Esses precisarão sempre de alguma atividade para se “sentirem” cristãos e, assim, vão se auto-enganando. O grande problema desse conceito é que, quando faltam as atividades, a suposta vida cristã vai embora e a pessoa passa a ser o que nunca deixou de ser. Mais uma vez é preciso saber que nossas atividades devem ser resultado de nossa transformação e nunca uma camuflagem religiosa, que logo se desfaz. Reportando-nos ao apóstolo Paulo, observamos que é ratificado em seu ensino, que nossas ações e boas obras devem ser fruto da nossa nova natureza, pois somos feitura de Deus, criados em Cristo Jesus (Ef. 2: 10). Outra consideração enganosa sobre vida cristã está no fato de alguns entendê-la como se fosse a submissão cega a alguns preceitos religiosos, humanos e legalistas. Segundo as Escrituras, tal comportamento é enganoso, pois só consegue mascarar as pessoas, não demonstrando nenhuma marca de um ser regenerado.
Não são poucos os que se escondem por trás dessas maquiagens (Cl. 2: 20-23). Devemos reforçar o conceito de que a verdadeira vida cristã é fruto de uma entrega incondicional a Deus, confiando plenamente na pessoa e na obra de Jesus Cristo. Só assim pode-se experimentar a nova vida e afirmar, como fez o apóstolo: “Já não vivo mais eu. Mas Cristo vive em mim, e a vida, que agora tenho na carne, vivo na fé do Filho de Deus, que por mim morreu e ressuscitou” (Gl. 2: 20). Poderíamos seguir adiante e listar mais alguns conceitos equivocados do que venha a ser vida cristã, como, por exemplo, compará-la com experiências emocionais e êxtases religiosos.
Diante de tudo isso, somos convocados a refletir sobre qual seja a base do pensamento cristão, isto é, o que vem a ser teologia cristã? Digo isso porque há muitas teologias, mas nem sempre as mesmas podem ser consideradas legitimamente cristãs, isso porque nem todas podem ser consideradas teologias bíblicas. Há inúmeras teologias contemporâneas que não tomam a Bíblia como fonte base de estudo. Assim, encontramos as teologias da prosperidade, existenciais, liberais, pós-modernas e assim por diante. Mas o que vem a ser teologia cristã? Há, principalmente, dois princípios a serem considerados aqui: O primeiro diz que devemos considerar se a Bíblia é usada como única fonte totalmente fidedigna. Isso parece óbvio, mas o fato é que muitas teologias estão longe desse princípio. Outro fator a ser considerado numa genuína teologia cristã é saber se ela visa o reino e a glória de Deus. Não é possível “tirar” Deus da teologia e colocar o homem e seus interesses no centro, mas é exatamente isso que tem acontecido nos nossos dias. Precisamos, então, resgatar os princípios que nos levam a uma forma de pensar que dignifique o evangelho de Jesus Cristo.
Por fim, desejo considerar a nossa cosmovisão. E a pergunta a ser feita é a seguinte: De que forma enxergamos o mundo? Como nos comportamos diante das mudanças e transformações de nossa sociedade? Como reagir às imposições de um mundo pós-moderno? Infelizmente a Bíblia não tem sido o fator norteador da visão de mundo, o que resulta numa perda irreparável. Basta darmos uma olhada atenta aos primeiros onze capítulos do livro de Gênesis para termos uma visão da origem de todas as coisas. Partindo desse pressuposto teremos uma correta interpretação da razão da existência humana, do porque de tanta maldade no mundo, do propósito original de Deus e de como as coisas estão distorcidas hoje. Se não tivermos essa base de conhecimento enxergaremos o mundo a nossa volta sob o ponto de vista do próprio mundo, ignorando a recomendação apostólica: “Não vos conformeis a esse mundo” (Rm. 12:2). Reparem que somos chamados de luzeiros do mundo (Fl. 2: 15).
O ano está apenas começando, mas o alerta do Espírito é claro: precisamos de uma vida cristã autêntica, uma teologia legitimamente cristã e uma cosmovisão que venha do Criador do mundo e não daqueles que o tem destruído.
No amor do Senhor,
Pr. Afranio de Andrade